março 6, 2026

O peso do contexto

“Este é o nosso mundo. O que é demais nunca é o bastante e a primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos. Os assassinos estão livres, nós não estamos. Vamos sair, mas não temos mais dinheiro. Os meus amigos todos estão procurando emprego. Voltamos a viver como há 10 anos atrás e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas.” – Teatro dos Vampiros, Renato Russo.

Marta tenta encontrar na bolsa uma presilha de cabelo, agora que finalmente conseguiu sentar-se no último lugar à janela do ônibus. Não encontra. Só consegue juntar tudo em uma massaroca e prender em um coque do jeito que dá. O calor é demais, o bafo que vem de fora terrível. Seu cabelo está duro e seco, a poeira no corredor de ônibus estava alta depois que a lama da última enchente secou. Ela olha pela janela e vê que a próxima parada está lotada. Muito lotada. Gente exausta, com cara de pobre que nem ela. “Eita, vai colocar onde esse povo?”, fala o moço do lado dela, suado e com um sorriso faltando um dente. Um outro responde aos gritos lá da frente: “Vamos pedir para o careca do INSS comprar uma Ferrari para nós! Vai chamar o prefeito! Político podre, tudo podre! E já começou a queima de arquivo!”. Arrancou alguns risos. “Esse tá louquinho, já”, riu uma senhora de cabelos brancos, em pé, não parecia muito velha. Só o que Marta consegue pensar é que conseguiu lugar na janela. Cada um que lute com seus problemas. Com o caos das chuvas e os poucos coletivos disponíveis, ela sabe que o retorno do trabalho até em casa ainda vai levar mais de duas horas. Por Cristo que daqui ninguém me tira!

Raquel perde o apetite e decide não investir naquele triste brócolis murcho que achou no buffet. Dizem que faz bem para a saúde e ela sabe o quanto engordou. Sua colega de trabalho não para de falar sobre quanto arrecadou uma influencer insuportável que ela detesta, numa noite em que fez um mutirão online. “Mais de um milhão, a mulher ligou a tela, falou meia dúzia de coisas e ganhou mais de um milhão!” Desde que sua mãe ficou doente, cuidar das crianças ficou só com ela. E acabou ganhando também uma filha de 86 anos. Dane-se o brócolis, eu mereço esse bife de sola mesmo! Duro que nem minha vida e com uma gordurinha do lado para combinar. Há muito tempo ela não sabe o que é ter um homem como companheiro, porque deles só quer distância, desde que o pai dos seus filhos saiu de casa sem deixar nem bilhete. Por alguma ironia do destino, no noticiário do restaurante estão fazendo mais uma matéria sobre feminicídio. “Esse foi perto de minha casa, que desgraçado, deixou duas meninas sem pai e sem mãe”, disse outra colega a seu lado. Melhor ouvir isso que ser surda!

Sara está sem fôlego de tantos balões que encheu. O pessoal decidiu que ia ser rosa e branco. Mas rosa é em outubro, esse mês não precisa colocar rosa! Ela tinha avisado. Daí o iluminado de contabilidade sugeriu colocar branco, que já aproveitava para falar da importância da saúde mental, porque o começo do ano tinha sido corrido e não deu tempo de fazer nada. Uma mesa cheia de balões rosas, pelo dia da mulher, claro que o pessoal ia saber, e balões brancos, porque não era outubro. “Palhaçada isso de parar todo mundo por meia dúzia de salgadinhos secos e uns refrigerantes. Estou com todo o faturamento para rodar ainda e acabou de mudar alíquota de imposto”. Com essa, Sara não se aguentou e devolveu: “você não precisa vir então! Pode aproveitar e sair mais cedo, o chefe disse que só precisava ficar meia hora, hoje vai vir a diretora falar de empoderamento feminino. Depois da fala dela você pode ir”. E seguiu enchendo os balões. Ranço dessa menina, Deus que me dê paciência, porque se me der força, eu juro que esgano.

Vidas reais importam, imaginação também

Essas três histórias foram livremente inspiradas em fatos, em relatos de mulheres do Brasil afora, com nomes inventados pela minha imaginação. Mulheres de qualquer setor ou empresa. É um estilo de narrativa que tenho gostado de retomar, a partir de um olhar de jornalista, escritora e analista. Aliás, como é gostoso recontar ou criar histórias, ainda mais quando os textos motivacionais enlatados, produzidos por IA ou corporativamente corretos, estão tão insuportáveis (e abundantes).

Conduzo com frequência encontros com mulheres em coletivos e organizações em alusão ao Dia da Mulher, onde falo sobre os pesos emocionais que carregamos: a eterna busca por contas pagas, corpos inteiros, noites de sono, mentes livres de culpa e ansiedade. Como sempre, procuro em meu trabalho salientar o valor de nossas intenções, reflexões e trocas, das forças internas que nos ajudam a suportar os pesos da vida. Tenho usado meu livro sobre e para mulheres para trazer um colorido diferente a essas conversas, contando com sete personagens e suas histórias que me ajudam nesse processo. Nessa obra, todas elas estão entre chegadas e partidas de um aeroporto, então só por isso já se vê que não são as mesmas dos pequenos recortes que trouxe aqui.

Ao longo desses encontros, seja com mulheres da indústria, seja de órgãos públicos, busco levar alento, facilitação de trocas, produção de sentido, um respiro para tocar a vida adiante. Não está fácil para ninguém.

Enquanto preparava um desses encontros, com poucos slides porque a ideia é deixar as mulheres falarem e trocarem experiências, lembrei dos ensinamentos de meu querido professor Sidinei Rocha de Oliveira, falecido pouco tempo depois de minha tese de doutorado. Ele dizia que “a cultura é o caldo em que a gente é cozido”. Estatístico que era, coisa rara no contexto de pesquisa de Gestão de Pessoas, ele acrescentava uma nota técnica a esse comentário, sempre que achávamos que uma única variável independente podia explicar um fenômeno: idade, sexo, escolaridade, região do país, por exemplo. Ou renda, tão difícil de medir. “Não se esqueçam do contexto. Não dá para ler tudo na frieza dos números. Precisa olhar o contexto”.

Com meu parceiro de vida e sócio Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, engenheiro e economista, pudemos encontrar dezenas de estatísticas cheias de contexto sobre mulheres, que trouxemos para ilustrar as histórias do livro. Coletamos pesquisas sobre o aumento expressivo de mulheres que são o sustento de casa, dados sobre síndrome de impostora, sobre o efeito da maioria feminina nas egressas de cursos de nível superior, ou condições que cercam o burnout das mulheres… porque as pesquisas nos contam, com fatos e dados, que existe um coletivo feminino em adoecimento.

E sim, o contexto no Brasil segue absurdo. Os escândalos de corrupção chegam a bilhões ou centenas de milhões, desvios de milhares de reais já nem trazem manchete. A violência contra mulheres chega a recordes. Enquanto isso, o empobrecimento da população amplia toda espécie de sofrimento. Para todos nós.

Entrego este texto com um pedido de desculpas, porque sei que foge do formato tradicional de artigo corporativo. Porém a mudança de estilo é intencional, e espero mantê-la sempre que pertinente. Porque o contexto está pesado demais, especialmente para nós mulheres.

O livro O Que Cabe na Sua Bolsa? Mulheres e seus símbolos (Editora Conexão IE) fala sobre os pesos emocionais que as mulheres suportam. A obra reúne sete histórias de mulheres em momentos de transição e usa a bolsa como metáfora da vida interior feminina, recipiente do que carregamos: expectativas, medos, culpas, sonhos e escolhas.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/o-peso-do-contexto-alessandra-gonzaga-ph-d–bdnhf/?trackingId=NG48WLa0SaitQZaEd5ZDkg%3D%3D Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro O Que Cabe na Sua Bolsa? Mulheres e seus símbolos.

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