maio 27, 2024

O foco triplo da responsabilidade emocional

Mesmo as pessoas mais resilientes possuem um limite para a quantidade de estresse emocional com a qual conseguem lidar. Todos nós temos capacidades diferentes de absorver o impacto emocional causado por vieses que se apresentam em nossas vidas. Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, essa capacidade foi testada diariamente em nós gaúchos, independentemente da área em que atuávamos e do quão perto estávamos do lodo e dos alagamentos. Chegamos ao limite dessa reserva emocional que nos mantém ativos em face às adversidades. Na Conexão IE, nos preocupamos, ao longo dessa tragédia, em prestar auxílio a cuidadores e líderes de pessoas, orientando sobre o melhor uso de nossos recursos emocionais. É nessa direção que segue este artigo.

Antes de iniciar minha análise, quero brevemente prestar agradecimento ao professor Daniel Goleman, grande influenciador e mentor de ideias da Conexão IE, que explorou, juntamente com Peter Senge, uma abordagem para a educação humana nomeada O Foco Triplo. Entendo que esse mesmo conceito pode ser aplicado a momentos de crise como o que vivemos no Estado, e nos traz uma abordagem emocionalmente inteligente de atuação responsável.

No início de minha carreira, trabalhei com responsabilidade social empresarial (RSE), e penso que em situações como essa começamos a atuar com algo que nomeei de responsabilidade emocional. Esse tipo de responsabilidade requer uma administração consciente e criteriosa de nosso capital emocional, e é melhor potencializada quando nossa ação se organiza em torno de três focos: em si, nos outros e no contexto de entorno.

O primeiro foco é em si mesmo: independentemente de seu grau de resiliência, poupe sua reserva emocional. Na medida do possível, fique atento e reconheça seus limites. Busque descansar, alimentar-se bem e manter um mínimo de período de sono. Acima de tudo: não menospreze o impacto emocional que a dor do outro provoca em você. Ao se sentir emocionalmente abalado, não tente buscar o equilíbrio sozinho(a): converse com alguém, busque também apoio emocional. Pode parecer egoísmo ou até cinismo esse primeiro foco em si mesmo, porém é importante lembrar que nossa reserva emocional é escassa e precisamos conseguir mantê-la em tempos de crise. Caso contrário, também iremos sucumbir, e, ao invés de estarmos aptos a auxiliar os outros, seremos nós quem precisaremos de auxílio. Porque somente quando nos sentimos abundantes em recursos emocionais (bem supridos em nossas próprias necessidades) é que podemos prover para outras pessoas, com qualidade, amor, entrega virtuosa.

O segundo foco da responsabilidade emocional é o cuidado com os outros. Ao prestar auxílio a quem quer que seja, a começar pelos entes queridos e vizinhos, temos que lembrar que essas pessoas já estão fragilizadas, tomadas por sentimentos de humilhação, culpa, raiva, medo, profunda tristeza e tantas outras emoções, todas embaralhadas e confusas. É preciso atuar com compaixão e empatia extremas. Por mais bem-intencionados que estejamos, devemos utilizar abordagens que não ampliem ainda mais o impacto emocional nas pessoas que propomos auxiliar.

Uma vez estabelecido o duplo foco, chegamos à sua extensão, que é a clareza de percepção do mundo mais amplo, que inclui nosso próprio histórico pessoal em relação ao que nos cerca, e também um pensamento sistêmico em relação aos acontecimentos. Às vezes nos deparamos com tragédias tão grandes que temos dificuldade de encontrar sentido nas experiências que testemunhamos, e isso pode dificultar nossa regulação emocional, principalmente se alguns gatilhos de nosso histórico de vida forem disparados nesse processo.

Também importante: afaste-se do que infelizmente costuma se ver em momentos assim nas redes sociais. A tragédia humana não deve ser tema para brigas políticas, ideológicas, busca de engajamento e promoção pessoal por influenciadores e narcisistas de plantão, e outras coisas do gênero. Pode parecer que não, mas esses comportamentos também drenam nossas emoções.

Por fim, atuando nos três focos de maneira integrada, busque métodos para reabastecer sua reserva emocional. Quando muitas de nossas atividades rotineiras de conexão social, lazer e promoção de bem-estar ficam fora de alcance, nossa recomendação na Conexão IE é que você busque se abastecer em sua conexão espiritual, qualquer que seja sua fé, crença ou orientação religiosa.

O povo brasileiro tem enfrentado diversas crises, mas naquele momento, o Rio Grande do Sul passava pela segunda cheia consecutiva em menos de um ano. Ainda assim, foi possível ver, em meio a muita dor e sofrimento humanos, uma onda de solidariedade se espalhar pelas cidades e localidades ao redor. Isso pela força emocional de um povo que percebe que é na união e na solidariedade que encontramos esperança para dias melhores.

Venceremos juntos essa crise, a partir de valores sólidos que nos levarão em segurança para um futuro melhor.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE, como reflexão durante as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/o-foco-triplo-da-responsabilidade-emocional-do-carmo-rodrigues-msc-l7ecf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o podcast Arena IE.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *