fevereiro 25, 2022
Guerra à flor da pele
O que um exercício de inteligência emocional pode ter a ver com a guerra entre Rússia e Ucrânia? Neste artigo, exploro as incríveis sintonias de nosso mundo emocional e o momento que estávamos vivendo como humanidade naquele início de conflito.
A atividade de um workshop de inteligência emocional consistia em explorarmos histórias emocionais. Ao final de alguns minutos de interação, chegávamos a duas histórias diferentes. Na primeira, uma família se desviava da rota de férias, atolando o carro em uma estrada vicinal. Depois de grande aflição e após ajuda de alguns estranhos, eles conseguiram chegar a um belo destino de praia. Na segunda história, jovens se divertiam em um bar e foram surpreendidos por uma briga. Eles saem em disparada em tom de diversão, mas só depois descobrem que se livraram de um grande perigo.
Essas histórias fizeram parte de um treinamento de inteligência emocional realizado pela Conexão IE. A intenção era mapearmos a evolução dos estados emocionais dos personagens principais. Em seguida, a turma fez suas análises. Como em tantas outras vezes, nessa vez também acabamos encontrando um fio condutor semelhante nas histórias. Nesse caso, os personagens principais estavam “distraídos” com sua rota principal de ação e acabaram surpreendidos por circunstâncias que lhes causaram grande aflição. No final, em ambas as histórias, tudo acabava bem. E por isso mesmo eram também interessantes e curiosas de serem contadas quando já haviam virado passado.
Esse estranho fio condutor comum aparecia nesse caso entre duas histórias. Mas já vi fios que ligavam quatro histórias de perda, fios de histórias de enfrentamento e agressão, fios de histórias entre pais e filhos, fios de histórias de superação.
Onde quero chegar? Quando estudamos inteligência emocional, falamos dos tipos diferentes de empatia, tão bem explicados por Daniel Goleman:
Empatia cognitiva: capacidade de compreender a perspectiva de outra pessoa;
Empatia afetiva: capacidade de sentir o que outra pessoa sente;
Empatia compassiva ou preocupação empática: capacidade de sentir o que a outra pessoa precisa de você.
Há ainda um quarto tipo de empatia, ligada à nossa percepção do “clima emocional” das organizações ou de grupos humanos. Algo que Richard Davidson chama de sensibilidade ao contexto, e que engloba uma espécie de conexão com o inconsciente emocional coletivo. De forma prática, essa sensibilidade aparece, por exemplo, quando entramos em uma reunião e “sentimos” que algo errado acabou de acontecer ali. Ou quando não conseguimos controlar o riso depois que alguém conta uma piada lá no final do corredor e, mesmo não sabendo do que se trata, nos contagiamos com as risadas que chegam até nós.
Agora guardemos essa questão de nosso exercício e vamos tratar das aflitivas notícias que chegavam naquele momento em relação à guerra entre Rússia e Ucrânia. Foi a primeira vez, desde o começo da pandemia, que um tema internacional ganhou tanto destaque em todo o noticiário. Era perceptível a preocupação das pessoas com o contexto daquela guerra, suas implicações na geopolítica da Europa, os comentários sobre a forma desastrosa com que lideranças conduziam a questão. O receio de novos movimentos em outras regiões do mundo. O medo, mais uma vez, de um conflito global nos rondando.
Costumo dizer a meus alunos que, ao contrário do que gostamos de pensar, nosso mundo emocional não pertence apenas a nós. Somos como peixes em um aquário, compartilhando a mesma água, sendo esse espaço líquido uma metáfora da capacidade de contágio que nosso emocional oferece. Cientistas da psicologia evolutiva sempre lembram que somos seres sociais, e isso significa que nossa fisiologia e nosso cérebro evoluíram de forma a permitir que sejamos impactados pelo que acontece com as pessoas em nosso entorno e pelo que trocamos com elas. Primeiro, somos mais impactados pelas pessoas que mais importam para nós e com quem mais convivemos, importância e frequência de interação contam muito em nossa sensibilidade ao contexto. Mas também somos impactados em torno de nossos maiores interesses, de uma forma geral, incluindo aquelas centenas de imagens e textos de atualizações que recebemos em nosso feed de notícias.
É interessante mesmo que se chame de feed, do inglês alimentação. Porque somos alimentados por aquilo que assistimos, lemos, interagimos. Nosso cérebro busca, a partir dessas informações, encontrar sentido para nosso momento, nossa experiência, nossa leitura da realidade.
Mas voltemos à Rússia. Por que razão aquela guerra pareceu nos afetar mais que outras de nossa era, como as que ocorreram em diferentes regiões do mundo em décadas anteriores, levando milhões de pessoas ao exílio?
Uma explicação possível é de que a pandemia mexeu com nosso emocional imensamente. Não lemos e vemos notícias sobre possíveis ameaças de forma tão distante quanto conseguíamos antigamente. Estávamos todos “à flor da pele” no que se trata de lidar com angústias coletivas. Outra razão é de que havia naquele conflito um sentimento de desalento, um certo bullying que uma nação poderosa pode fazer com uma nação livre, e que, dessa vez, acabou por nos lembrar o quão frágeis estamos todos nós. E que seguimos, como sociedade, rondados por atos de tirania, o que é profundamente assustador.
Tudo isso parece parte do fio condutor de nosso caldo coletivo, mas de todos os motivos pelos quais aquela guerra afetou tanto nossos nervos, creio que o principal seja de que estávamos nos sentindo mais conectados à nossa família humana. A pandemia nos fez perceber que pessoas amadas foram perdidas em todo lugar do mundo. Acompanhamos o sofrimento de crianças e jovens de todos os continentes, que se isolaram enquanto cresciam. Como adultos, percebemos nossas certezas sobre muitas coisas caírem por terra. Recolhemos e lidamos com nossas próprias ansiedades, pela necessidade de continuar a vida.
Naquele momento, enquanto esperávamos por uma resolução pacífica o mais breve possível, era preciso, em paralelo, regular a “dieta” a que nos expomos em nosso feed de notícias. O efeito negativo em nós é real e tangível quando caímos na espiral de notícias negativas, gerando uma série de estados emocionais negativos e efeitos físicos de estresse, especialmente vindos de um período em que ainda nos recuperávamos da pandemia.
Finalizo esta reflexão com duas citações do Dalai Lama, que ajudam a lidar com isso tudo:
“O mundo não pertence aos líderes, o mundo pertence a toda a humanidade.”
“Amor e compaixão são necessidades, não luxos. Sem eles, a humanidade não pode sobreviver.”
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, como reflexão sobre inteligência emocional coletiva no contexto do início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em fevereiro de 2022.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/guerra-%C3%A0-flor-da-pele-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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