janeiro 5, 2024
Felicidade, sentido e inteligência emocional
“Muito pouco é necessário para ter uma vida feliz; está tudo dentro de você, na sua maneira de pensar.” — Marco Aurélio
Já faz algum tempo tenho dedicado meu foco de aprendizado ao processo de tomada de decisão, tanto no aspecto individual quanto no escopo das organizações. Inicialmente, a prática de ensino na área de economia havia me conduzido a um ramo de conhecimento associado à economia comportamental, isto é, como crenças, valores e estados emocionais influenciam decisões de ordem econômica. Muito se desenvolveu nesse campo de conhecimento, tendo havido diversos psicólogos economistas com seus trabalhos reconhecidos mundialmente, como Daniel Kahneman, Richard Thaler e Robert Shiller, todos laureados com o Prêmio Nobel em Economia.
Mais recentemente, tenho voltado minha atenção a outra variável muito relevante no processo de tomada de decisão, que é a busca da felicidade. Este tema tem despontado como de extrema relevância para as organizações, pois diversos estudos já indicam que uma percepção de felicidade por parte de funcionários leva a uma maior motivação e engajamento, e contribui para a atração e retenção de pessoas.
Iniciei um segundo mestrado, desta vez na área de psicologia organizacional, com um projeto de dissertação sobre Felicidade nas Organizações. Embora ainda esteja no meio do caminho, gostaria de compartilhar algumas conclusões interessantes às quais cheguei até aqui.
Para começo de conversa, felicidade, assim como a inteligência emocional, é um construto psicológico, ou seja, é algo criado pela mente humana, que não pode ser observado, mas apenas inferido a partir de suas manifestações ou da percepção dos indivíduos. Não há na literatura científica, até o momento, consenso sobre quais elementos constituem esse construto. Também há uma carência de instrumentos para avaliação do grau de felicidade percebido ou experimentado por um indivíduo, mesmo porque, como não sabemos o que compõe essa percepção de felicidade, fica muito difícil elaborar e validar um instrumento que possa aferi-la. Parte do meu projeto de pesquisa é justamente adaptar um instrumento que possa ser utilizado para medição da felicidade em organizações brasileiras.
Tenho a crescente impressão de que descobrir o que faz uma pessoa feliz envolve uma jornada de autoconhecimento. Fatores que influenciam a felicidade podem variar em função de aspectos culturais, geracionais, nível socioeconômico, ambiente no qual o indivíduo está inserido, e qualidade do suporte que recebe, tanto da organização em que atua quanto dos relacionamentos que as pessoas conseguem desenvolver. Há indícios de que o sexo da pessoa também pode ser um influenciador de felicidade, sendo mulheres mais felizes quando há uma associação com o propósito do que fazem, e homens mais propensos a prolongar o efeito das emoções positivas, sem que isso esteja necessariamente associado ao propósito.
Apenas a consideração do gênero nos estudos de felicidade mostra a dificuldade tanto da definição de um construto quanto de um instrumento para sua avaliação. Nesse caso, a noção de propósito está associada à produção de sentido, ao significado que damos às nossas experiências, e não há uma orientação universal para isso.
Sentido de vida
Para o psicólogo Irvin Yalom, em seu livro Psicoterapia Existencial, “sentido” e “propósito” possuem conotações distintas. Sentido está associado a uma percepção de coerência ou razão, e propósito tem a ver com uma intenção, um objetivo ou uma função. Quando aplicados à nossa experiência de vida, sentido e propósito são conceitos que se mesclam na construção de um significado para o quê e por que fazemos o que escolhemos fazer.
Do ponto de vista existencial, o mundo que nos cerca é resultado de um sem-número de contingências, oportunidades e restrições. Isso implica que a realidade que experienciamos, por questões de detalhes, poderia ter sido diferente da percepção de outro indivíduo que compartilha o mesmo espaço-tempo.
Vivemos em bolhas, e cada um dentro da sua bolha produz seu próprio sentido. Não há um desígnio universal que consiga abraçar entendimentos de todos os indivíduos. Como consequência, é justo admitir a impossibilidade da definição de um construto universal para a felicidade.
Muito provavelmente, você que chegou até aqui na leitura deste artigo já tenha se perguntado várias vezes por que é tão difícil compartilharmos soluções, situações ou experiências que contentem a todos. Talvez a última experiência tenha sido até mesmo a mais recente reunião de família em algum feriado ou celebração, e a sensação de ressaca existencial que costuma vir logo depois.
Por isso volto à minha tese da importância do autoconhecimento e de conhecermos aqueles que nos cercam, sejam familiares, amigos ou colegas de trabalho, e a necessidade de construirmos denominadores comuns que possam ser base para experiências felizes.
Nesse sentido, a inteligência emocional, que entre suas competências traz fatores ligados à percepção emocional e empatia, pode ser um grande instrumento para a construção da felicidade para indivíduos e organizações. Por esse motivo, a felicidade passou a fazer parte do trabalho que desenvolvemos na Conexão IE, por meio de projetos de facilitação executiva, workshops e vivências no âmbito organizacional.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/felicidade-sentido-e-intelig%C3%AAncia-emocional-do-carmo-rodrigues-msc-ph5kf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o podcast Arena IE.
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