fevereiro 15, 2022

Emoções do retorno: o começo do fim da pandemia

Vivíamos naquele momento uma nova virada. Aquela que nos levava a uma realidade parecida com a que tivemos, mas que já não era mais o que havia sido. Uma que alterava imensamente nossa interação com os colegas, a família e o próprio trabalho. Parecia que tinha sido ontem: em março de 2020, reformulamos nossas vidas para o trabalho remoto. Ou para sobreviver às pessoas que estavam em casa. Durante dois anos, nos adaptamos a máscaras, reports de notícias, vacinas, protocolos de saúde. Naquele momento, finalmente, as coisas começavam a voltar. Ou quase.

Boa parte das empresas chamava os funcionários para trabalharem inteiramente no site, com exceção das equipes que já atuavam de forma remota antes da pandemia. O mesmo com as faculdades, que retomavam gradualmente as aulas presenciais. E vivíamos todos em um compasso de espera, sentindo que a cada semana nos aproximávamos mais de um mundo que voltaria a ser mais presencial do que remoto. E isso causava muitas, diversas emoções.

Um certo balanço emocional de perdas e ganhos era salutar de ser feito naquele momento. De acordo com pesquisa da McKinsey daquele período, havia um misto de experiências e de expectativas em relação ao retorno, tanto para emoções negativas quanto positivas. Entrevistados sobre as expectativas em relação ao trabalho, cerca de um quinto esperava ter um impacto positivo em sua saúde mental ao retornar à vida presencial, enquanto quase metade antecipava algum ou significativo impacto negativo na saúde mental. Aos que já haviam retornado ao trabalho presencial havia alguns meses, percebia-se um empate técnico entre efeitos mentais negativos e positivos.

Mas quais seriam esses efeitos?

Vale lembrar como foi a primeira virada. Em questão de dias, precisamos modificar nossas reuniões, nossas rotinas de família, nosso espaço para trabalhar. Feche os olhos, você se lembra. Do medo subindo pelas entranhas, da paralisia mental em torno dos noticiários, da sensação de que todas as nossas certezas sobre nosso futuro escorriam com o passar dos dias. E meses. Você se lembra também de como foi resiliente. Como se adaptou à tecnologia, resistiu a teorias de conspiração, se conectou com a própria família. Percebeu sua própria história pessoal como nunca. E começou a ficar um pouco mais fácil.

Mas naquele momento também havia muitas coisas a temer. Como seriam as reuniões, agora que não se podia mais fechar o áudio e a câmera? O que fazer com a rotina familiar? Como lidar com a angústia de conviver com mais, muito mais, pessoas? E no trabalho, será que conseguiríamos nos concentrar, será que teríamos energia, disposição?

Por outro lado, existiam ganhos. O retorno das fronteiras entre espaço pessoal e espaço de trabalho. A sensação de ter feedbacks imediatos sobre o que é dito ou não dito. As conversas entre reuniões para aliviar a tensão dos prazos e entregas. O uso de todas aquelas roupas bacanas que ficaram esquecidas no roupeiro por tanto tempo…

Uma cliente relatou naquela época sua principal ansiedade com o retorno: “Antes eu conseguia ficar afastada das pessoas que não quero conviver. Agora vou precisar voltar a vê-las, todos os dias.” Lembrei a ela que também poderia se aproximar das pessoas que gostava de conviver. Ela riu e disse: “é verdade, e por incrível que pareça, basta uma pessoa positiva para a gente já se sentir melhor”. Sim, é bom lembrar disso!

Nesse contexto de um novo choque de realidade para muitos, não deixava de vir à cabeça o conceito de “agilidade emocional”, cunhado por Susan David. Ora, todas as nossas trajetórias de vida são pontuadas por idas e vindas, caminhos tortuosos e contratempos. Apesar disso, parece que não estamos preparados para essas transições. Mudar nos causa estresse e traz uma corrente de emoções negativas: medo, culpa, frustração, ansiedade em relação ao futuro, insegurança de desempenho, vontade de “para o mundo que eu quero descer”! E eis que depois de tanto esforço de nos adaptarmos a uma nova realidade, nossa tendência é de rigidez e de tentarmos manter as coisas como estão.

Quem já fez alguma mudança de domicílio na vida entende bem isso: imagine se, depois de abrir a última caixa remanescente da mudança, alguém chegasse e pedisse: “bora encaixotar tudo de novo?”

A agilidade emocional tem a ver com encarar nossas emoções negativas, sem negá-las e sem nos afogarmos nelas, conseguindo transcendê-las, buscando apoio na noção de sentido ou propósito maior. Sim, aquela adaptação trouxe transtornos individuais. Mas o objetivo final era retomar as atividades econômicas, gerar novos empregos, recuperar outros tantos, promover sustentabilidade para as cadeias de fornecimento das quais participávamos. As crianças precisavam voltar às aulas presenciais e aprender, famílias precisavam se reconectar, tratamentos médicos precisavam ser realizados, enfim, era preciso voltar a viver com o máximo de normalidade possível.

No conceito de resiliência, isso não significa necessariamente voltar exatamente como era antes: é possível encontrar um novo estado de equilíbrio, que combine o melhor dos mundos vividos. Agilidade emocional na veia: autoaceitação, desenvoltura, flexibilidade. Relaxe, respire fundo: vamos em frente.

Afinal, não podemos nos esquecer que entre os melhores efeitos do retorno estava a retomada dos contatos: somos seres sociais. Isso significa que nosso cérebro emocional se abastece desse contato “voz a voz”, “rosto a rosto” com as pessoas, especialmente aquelas que nos trazem sentimentos de inspiração, compartilhamento, propósito compartilhado.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, como reflexão sobre o retorno ao trabalho presencial no período de transição da pandemia de COVID-19, em fevereiro de 2022.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/emo%C3%A7%C3%B5es-do-retorno-o-come%C3%A7o-fim-da-pandemia-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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