agosto 8, 2023
Capital atencional: a nova moeda do estado de presença
“Uma ocasião especial é qualquer ocasião à qual a alma esteja presente.” — Clarissa Pinkola Estés, em A Ciranda das Mulheres Sábias
Em minhas aulas noturnas na disciplina de Gestão de Pessoas, costumava perguntar para os alunos antes de começarmos: “e aí, pessoal, quem já chegou?”. A intenção era descontrair um pouco, respirar fundo e preparar a cabeça para o último turno, cansada que estava minha audiência, uma vez que a maior parte trabalhava durante o dia. Essa mesma pergunta poderia ser feita a qualquer momento do dia atualmente, para pessoas no espaço de trabalho ou em seus momentos de folga e lazer. Sim, está cada vez mais difícil estarmos presentes em mente e corpo.
Percebendo essa tendência, os anúncios para vendas de cursos on-line vêm mudando. Como frase de impacto para chamar atenção dos potenciais alunos-consumidores, aparecem sentenças como “saia da armadilha do scrolling”, “use seu tempo a seu favor” ou simplesmente “pare de procrastinar”.
É nesse ponto que volto a lembrar da famosa frase de um querido cliente de coaching: “Ale, quando eu tiver um tempo, vou fazer um curso de gestão do tempo”…
O fato é que está cada vez mais difícil sermos donos de nossas horas, comandantes de nossos centros de interesse. Lembro quando as pessoas reclamavam do excesso de panfletos na correspondência de casa. Depois, do excesso de spam na caixa de e-mails. E agora, das centenas de propagandas e impulsionamentos que aparecem no feed das redes sociais.
Todos querem nossa atenção. E para sermos justos, tudo que queremos é gastar nossa atenção no que menos nos importa, o que costumávamos chamar de “entretenimento” e agora simplesmente assumimos: são hábitos que roubam nosso tempo, consomem recursos cognitivos e nos impedem de efetivamente fazermos o que precisamos (e queremos) fazer.
Em treinamentos sobre Comunicação e Relações de Confiança que costumo conduzir, uma provocação recorrente para turmas de gestores é simples: que tipo de situação estaria atrapalhando a assertividade e a comunicação efetiva entre as diferentes áreas da empresa? Em geral, os líderes concordam que muitos ruídos de comunicação ocorrem pelos múltiplos canais de acesso (WhatsApp, e-mail, telefone, plataformas de mensagens corporativas), pela facilidade de convocação de pessoas para reuniões, o que gera um excesso de encontros, e pelas mensagens que chegam a qualquer hora do dia, sempre exigindo resposta urgente. Ou seja, também nas empresas estamos trabalhando em maior intensidade, ocupados o tempo todo e com menos espaço para olhar o todo e refletir: essa viagem é mesmo necessária?
Assim é que nas reuniões, cada vez mais curtas e com mais pessoas que não precisariam estar nelas, as pessoas também estão disputando a atenção dos colegas. Que, se possível, ficam com outras telas por perto, tentando responder alguém que acabou de enviar uma mensagem… estando em qualquer outro lugar que não o espaço presente. E assim seguindo, como num scrolling contínuo, de uma interação para a outra, tendo muito pouco tempo para contribuir, aprender, refletir ou fazer.
Pensando nisso tudo, lembrei do conceito do buffer de memória, que é um espaço de memória vago utilizado de forma temporária para a realização de operações. Essa metáfora nos conta que hoje precisamos de um buffer de tempo, ou seja, algum pulmão de espaço em nossas agendas, pausas para respirar e nos conectarmos com o que estamos fazendo. Porque enquanto deixamos as atividades tomarem conta de cada meia hora, ficamos sem tempo para nos organizar, encaixar ajustes, prever mudanças, atuar em imprevistos. Que, aliás, teimam em acontecer todo dia.
Antigamente, quando falávamos em gestão de tempo, buscávamos o caminho de uma maior produtividade, ou seja, de fazer o máximo possível no menor espaço de tempo. Agora não se trata mais disso, uma vez que temos todo apoio da tecnologia para nos “poupar o tempo” em todo lugar, inclusive em tarefas intelectuais (que o diga a inteligência artificial).
Parece que agora o desafio que temos à frente é conseguirmos estar presentes, ou seja, termos nossa mente e atenção junto com cada atividade que executarmos. Além disso, há o desafio de reduzir redundâncias, que o diga a mensagem no WhatsApp para lembrar do e-mail enviado, ou a ligação para avisar onde estão os documentos já compartilhados em outro canal.
Por isso que defendo abrirmos um buffer de tempo, ou seja, encontrarmos formas de poupar e reservar esse recurso tão escasso, acumulando uma espécie de capital atencional. E isso vale para todas as dimensões de nossa vida.
A responsabilidade pela gestão do nosso tempo implica, em primeiro lugar, em fugir dos ladrões de tempo, que tanto produzem ansiedade: o acompanhamento dos inúmeros grupos de WhatsApp, a rolagem infinita em redes sociais, os vídeos engraçados sobre temas de nenhum interesse, as notícias polêmicas que só nos fazem duvidar ainda mais da humanidade. Dizer não a esses hábitos pode envolver um enorme exercício de força de vontade, fundamental para irmos na direção da melhor versão de nós mesmos, caso tenhamos tido tempo de definir o que isso seria.
O foco atencional e a renúncia ao tempo perdido também envolvem acompanhar as janelas que a mente pode abrir e perceber as horas gastas em culpas ou arrependimentos, que nos levam a morar no passado, ou em expectativas e sonhos irreais, que nos colocam peso e ansiedade em relação ao futuro. Sim, o melhor lugar para obtermos o melhor de nossas habilidades cognitivas e aplainarmos os efeitos desagradáveis das emoções negativas é no tempo presente.
Ainda, se queremos facilitar a inteligência emocional, precisamos planejar e reservar tempo para conduzir uma alimentação saudável, realizar exercícios físicos, finalmente experimentar aquele app de meditação guiada. Enquanto isso, se queremos avaliar os rumos de nossa carreira, há que se reservar tempo para conversar com aquela mentora querida, refletir em um caderno de atividades pós-sessões, fazer um curso complementar, se atualizar, viajar.
Começar por onde? Vale o sábio conselho de uma canção do Kid Abelha:
Dizer não é dizer sim Saber o que é bom pra mim Não é só dar um palpite Dizer não é dizer sim Dar um não ao que é ruim É mostrar o meu limite, é mostrar o meu limite
Por isso então saio deixando essa pergunta: qual atividade você vai trocar por uma pausa no dia de hoje? E amanhã?
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/capital-atencional-nova-moeda-do-estado-de-presen%C3%A7a-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o podcast Arena IE.
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