fevereiro 13, 2024

As empresas estão preparadas para as funções 4.0?

Recebi certa vez uma solicitação para elaborar um treinamento envolvendo competências para uma função 4.0 em uma empresa aqui no Brasil, e elaborar essa proposta ou não tem sido um dilema recorrente para mim. O mundo 4.0 definitivamente invadiu o universo corporativo na indústria, saúde, agronegócio, marketing, logística, e por aí vai. Todos desejam embarcar na onda.

O apelo do profissional 4.0 é muito sedutor. Entre seus principais atributos e competências, podemos citar: conhecimento de ciência de dados para sua coleta, limpeza e interpretação; habilidades de programação que ampliam a capacidade de manipulação e modelagem de dados; criação de soluções de visualização de dados para apoiar a tomada de decisão; conhecimentos estatísticos avançados para suportar estratégias de business intelligence; e, mais recentemente, até comunicação e storytelling baseados em dados, para influenciar públicos não técnicos a partir de narrativas fundamentadas.

Se alguma das palavras do último parágrafo soaram grego para você, não se preocupe: você não está sozinho. A demanda existe e é clara. Trata-se também de uma oportunidade de negócios, que tem sido incentivada pelas empresas que fornecem soluções para armazenamento de dados.

Certa pesquisa promovida pela Oracle e por um conhecido cientista de dados, autor de best-sellers ligados ao tema, chamada “Decision Dilemma”, realizada com milhares de funcionários e líderes empresariais em diversos países, concluiu que as pessoas estão sofrendo para tomar decisões nas suas vidas pessoais e profissionais, numa altura em que são forçadas a tomar mais decisões do que nunca, criando um fenômeno que chamaram de inércia organizacional.

Algumas constatações interessantes desse estudo:

A grande maioria dos líderes empresariais relatou dificuldades de decisão, lamentando, sentindo-se culpados ou questionando uma decisão que tomaram recentemente;

Boa parte admite que o grande volume de dados e a falta de confiança nos dados os impediu de tomar alguma decisão;

A maioria mudou a forma como toma decisões nos últimos anos;

Quase todos querem a ajuda de dados.

Em resumo: os gestores querem que os dados ajudem e sabem que são essenciais para o sucesso das suas organizações, mas não acreditam que tenham as ferramentas para ter sucesso, nem o pessoal com a competência necessária. E aí vem uma das conclusões da pesquisa: a maioria dos líderes empresariais preferiria um robô para tomar suas decisões.

Adquirir uma solução por meio de um robô, que ainda precisa ser aperfeiçoada, apesar dos custos, parece estar mais ao alcance no curto prazo. Já treinar do zero funcionários para que adquiram o perfil 4.0, e ainda prover e capacitá-los para o uso de softwares de tratamento, análise, modelagem e apresentação de dados, é um cenário com a linha de chegada muito mais distante.

Apesar dos altos investimentos necessários em tecnologia da informação, acredito que o maior gargalo, considerando as restrições existentes, seja a disponibilidade de pessoas com competências nas ciências exatas.

Trabalho com estatística há décadas. Programava Pascal aos 13 anos de idade. Tenho formação de engenharia, administração e economia. Apliquei estatística em engenharia de confiabilidade, soluções para indústria automotiva, pesquisas de mercado, e outras aplicações que requerem essas competências. E, considerando meu conhecimento estatístico acumulado, posso dizer que as coisas estão começando a fazer sentido.

Voltando ao meu dilema pessoal sobre a elaboração de uma proposta de serviços, a questão é que não há como transformar, por meio de um único treinamento, funcionários de uma organização, contratados e treinados com base em outro conjunto de competências, usuários de Excel básico ou até mesmo de ERPs mais sofisticados, mas ainda usuários, em profissionais 4.0. Receio que, como resultado de um workshop dessa natureza, apenas aumente a ansiedade coletiva do time. É frustrante, apesar de necessário no processo de aprendizado, ser empurrado do pico da ilusão para o vale do desespero.

É preciso se dar conta do paralelo (ainda que óbvio) entre o conhecimento matemático e estatístico e a habilidade de ler e interpretar dados para a tomada de decisão. Não temos estatísticas amplas sobre adultos e competências necessárias a esse universo 4.0 no Brasil, mas temos dados relevantes sobre jovens e adolescentes: avaliações internacionais de proficiência em matemática mostram o Brasil consistentemente abaixo da média de países desenvolvidos, com uma pequena fração dos estudantes atingindo os níveis mais altos de resolução de problemas complexos, e levantamentos nacionais indicam que apenas uma pequena parcela dos estudantes do ensino médio da rede pública tem aprendizado considerado adequado em matemática.

Fui professor universitário de graduação em cursos de engenharia, economia e administração por muitos anos, e sou testemunha da degradação do conhecimento matemático e estatístico dos alunos que ingressam no curso superior. Como orientador de trabalhos de conclusão de curso, raramente tive alunos que se engajaram na realização de trabalhos baseados em métodos quantitativos, como análises de correlação e modelagem por regressão.

Como consultor de empresas, não conheço um cliente que não enfrente dificuldades em atrair e reter profissionais com competências avançadas nas áreas de engenharia e tecnologia da informação.

Vejo anúncios de instituições privadas de ensino que prometem incluir em suas grades curriculares centenas de horas dedicadas a temas como big data, inteligência artificial e internet das coisas, e fico me perguntando como os professores vão conseguir entregar o que os cursos estão prometendo, conhecendo o público-alvo egresso do ensino médio, ou os profissionais de empresas que buscam aperfeiçoar seus currículos estudando à noite, brigando com o sono, conflitos familiares, compromissos profissionais, e com os anos de distância dos bancos acadêmicos e do hábito de adquirir novos aprendizados.

Qual a solução?

Acompanhei, ao longo de décadas, os esforços na Conexão IE para ensinar inteligência emocional nas organizações. Muitas vezes tínhamos que iniciar com cursos de alfabetização emocional, isto é, faltavam até mesmo elementos como um vocabulário básico para adentrar e compreender o universo emocional.

É a mesma abordagem necessária para o universo 4.0: muitas empresas terão que começar por uma alfabetização de dados, aprendendo conceitos de estatística básica, manipulando conjuntos de dados e realizando algumas modelagens, mesmo que com os recursos estatísticos de planilhas eletrônicas, para depois evoluir para a extração e manipulação de dados disponíveis nas organizações. Esses programas de treinamento devem ser abrangentes, desenhados de acordo com o perfil dos funcionários e necessidades das organizações, e também de acordo com o orçamento de tecnologia da informação disponível, que reflete no arcabouço de soluções e sistemas que a empresa terá disponível.

Outras medidas também poderiam ser necessárias, como alterar o conjunto de competências desejado nos processos de recrutamento e seleção dos futuros profissionais do universo 4.0. Mas aí, as áreas de recursos humanos vão precisar ampliar suas capacidades de mineração de currículos em um mercado de trabalho com competências cada vez mais escassas. Por isso acredito mais na formação interna. E dá-lhe formação em inteligência emocional para apoiar todo esse processo de mudança! Essa é uma proposta de serviços que eu e Alessandra Gonzaga, Ph.D., estamos sempre prontos a fazer na Conexão IE.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/empresas-est%C3%A3o-preparadas-para-fun%C3%A7%C3%B5es-40-do-carmo-rodrigues-msc-lhdxf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE.

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